Extrato pirolenhoso e seu uso como “dessecante ECOLÓGICO”

Sem Título-2

Na postagem anterior discuti sobre a proibição da capina química em área urbana. Ao final da postagem citei a crescente utilização do extrato pirolenhoso pelos municípios como dessecante “ecológico”. Agora iremos discutir sobre a utilização deste extrato.

O extrato pirolenhoso (EP) é um liquido proveniente da condensação da fumaça da queima de madeira utilizada para obtenção do carvão. É um subproduto da atividade de carvoaria. Utilizado no Japão há milênios, começa a ganhar espaço no Brasil. É uma substância ácida, composta basicamente por alcatrão, ácido pirolenhoso, e óleos vegetais, os quais contêm por volta de 200 substâncias químicas que interagem entre si.

O extrato possui uma grande gama de utilização, sendo usado como adubo, potencializador dos efeitos dos defensivos agrícolas, inseticida e até na culinária. Cada uso depende de uma forma correta de diluição ou mistura.

Ainda não há estudos científicos suficientes para comprovar todos os seus efeitos, muito menos ligando esses efeitos com cada substância ou grupo de substâncias presentes no extrato.

Porém, a utilização correta do ácido pirolenhoso é, a princípio, vantajosa ao meio ambiente, pois diminui as emissões de gases nas carvoarias, pode diminuir em até 50% a utilização de agrotóxicos nas lavouras e aumentar a produtividade com a adubação do solo.

Mas como toda substância ou atividade, também pode causar danos.

Podemos fazer um paralelo com o extrativismo vegetal. Geralmente esta atividade é sustentável e ecologicamente correta. Porém, com o aumento demasiado da demanda e a perspectiva de grandes lucros, os extrativistas podem passar a retirar a matéria prima da floresta de forma predatória. O mesmo pode ocorrer com o extrato pirolenhoso: com o aumento da procura, ao invés da obtenção da substância como uma atividade suplementar, muitas carvoarias podem ser abertas visando ou priorizando a obtenção do extrato, anulando o benefício da diminuição das emissões, ou até aumentando as emissões.

Outro ponto possivelmente negativo do extrato pirolenhoso é seu efeito herbicida, o qual começou a ser indevidamente utilizado. Esta característica é devido à alta carga de nitrogênio, que provavelmente mata as plantas por desidratação, pois torna o meio hipertônico em relação ao interior da mesma.

Antes de prosseguir, é necessário definirmos a palavra agrotóxico. De acordo com a Lei nº. 7.802/89, agrotóxicos e afins podem ser definidos como:

Substâncias e produtos, empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento.

Como mencionei na última postagem, em 2010 a ANVISA publicou uma nota técnica informando sobre a proibição da utilização de qualquer substância para capina química em área urbana. Inclusive em 2016 saiu uma nova nota técnica. Segundo a ANVISA “a prática da capina química em área urbana não está autorizada pela ANVISA ou por qualquer outro órgão, não havendo nenhum produto agrotóxico registrado para tal finalidade (grifos meus).”

Assim, herbicidas, de origem orgânica ou sintética, são considerados agrotóxicos. Portanto, o extrato pirolenhoso é um tipo de agrotóxico e seu uso na área urbana não é permitido.

Em todos os artigos, revisões, teses de mestrado e folhetos das empresas ou órgãos governamentais que pesquisei, nenhum menciona a utilização do extrato pirolenhoso como herbicida em área urbana, muito menos como “dessecante ecológico”. Isso porque, além de não ter registro para tal, sendo proibido, não é nem de longe “ecológico” como querem que seja; e muito menos uma utilização adequada do produto.

Aproveitando a falta de estudos sobre a substância, a novidade na utilização do produto, e a falta de conhecimento de muitos administradores, representantes e proprietários de empresas que produzem ou comercializam o extrato pirolenhoso estão fazendo propaganda e demonstrações para as prefeituras, e conseguindo convencê-las de que a utilização do extrato como herbicida (na área urbana) é permitida e “ecológica”.

Em uma pesquisa nos portais da transparência disponíveis na internet, podemos encontrar informações sobre diversos municípios que utilizaram dinheiro público para a compra de extrato pirolenhoso para uso como “dessecante ecológico” em área urbana. Um exemplo é o município de Nova Bassano/RS, que comprou 50 L de extrato para uso como “capina orgânica” em área urbana, como demonstra a imagem abaixo.

Extrato Pirolenhoso compra

esta reportagem aqui mostra a compra e utilização do extrato pirolenhoso pela prefeitura de Dom Feliciano/RS, inclusive com fotos da aplicação do produto nas calçadas. Na reportagem diz que o extrato pirolenhoso possui “base orgânica”; o que pode levar as pessoas a entenderem que por isso é seguro. Muitos agrotóxicos, como os organofosforados e organoclorados, possuem base orgânica e nem por isso são mais seguros do que muitas substâncias inorgânicas.

Não estou dizendo que o extrato pirolenhoso é tão perigoso quanto os organofosforados ou clorados, mas apenas que o argumento de que são seguros porque possuem base orgânica, não procede.

Lógico que entre utilizar uma substância muito agressiva e tóxica e uma nem tanto, sempre será melhor utilizar a menos tóxica. Porém existe a terceira opção, mais inteligente, que é não utilizar substância nenhuma tóxica.

É possível encontrar muitos outros municípios que estão comprando o extrato para o mesmo fim, inclusive Marau. Aqui o Conselho de Meio Ambiente aprovou e pagou (ou vai pagar) a compra de grande quantidade de extrato pirolenhoso como “dessecante ecológico”. Apesar da orientação e avisos de que a substância não é autorizada para utilização na capina química, os administradores continuam adquirindo a substância.

A secretaria de agricultura do Estado do Rio Grande do Sul editou uma cartilha onde trás informações básicas a respeito do extrato pirolenhoso e indica seus usos. Como mencionado anteriormente, nunca se fala em efeito herbicida. Isso porque substâncias com grande quantidade de Nitrogênio podem causar danos ao meio ambiente, como eutrofização, produção de substâncias mais tóxicas do que as originais, extinção dos microrganismos e quebra da biodinâmica do ambiente, etc.. Também a alta carga de N pode produzir substâncias tóxicas e cancerígenas, como os nitritos e nitratos, os quais podem ser carreados em grande quantidade para os rios e lagos. O próprio pH do extrato, que é ácido, pode alterar o pH do solo, da água, e dos microambientes, diminuindo a diversidade nestes locais. Por isso seu uso deve restringir-se apenas às situações autorizadas pelos órgãos competentes, o que não inclui a capina química.

Porém, quero deixar bem claro que acredito que a utilização do estrato pirolenhoso na agricultura, na indústria de cosméticos, alimentícia, e em outras áreas, é extremamente benéfica, e deve ser incentivada. Minha ressalva aqui é em relação ao uso como herbicida em área urbana, o qual ainda não há nenhum produto autorizado pela ANVISA.

Como mencionei acima, nenhum método de remoção de vegetação na área urbana chegará próximo da segurança e sustentabilidade da capina mecânica. Por isso todos os países desenvolvidos do mundo utilizam métodos mecânicos para limpeza de logradouros e terrenos, como exemplificado no vídeo abaixo; esta é a direção que estamos indo e provavelmente será o caminho de todo o mundo civilizado.

18 thoughts on “Extrato pirolenhoso e seu uso como “dessecante ECOLÓGICO”

  1. Fernando Wons Post author

    Ivanildo, eu não vendo nenhum produto para capina mecânica não. Defendo a não utilização da capina química não porque me é vantajoso economicamente, mas simplesmente porque é saudável para o meio ambiente e para a população. Será que você não consegue imaginar alguém defendendo alguma coisa sem pensar em ganhar vantagem em cima? Acho que o outro lado é bem mais verdade: conheço muitos que defendem a capina química porque querem vender produtos como os da postagem…

    Obrigado pelo comentário. Abraços.

  2. Joelson Araujo Santos

    Boa tarde,
    Sou fabricante de equipamentos de pirólise de resíduos solidos urbanos que geram, em seu processo de purificação da fumaça, uma certa quantidade de líquido pirolenhoso e que precisam ser aproveitados.
    Todos os dias são gerados cerca de 20 litros de líquido pirolenhoso com ótima qualidade.
    Existem empresas ou orgãos que se interessam por esse líquido?
    Entrem em contato por email
    joelsonaraujo@ecotrash.ind.br

  3. junio fernandes

    O uso do pirolenhosos é relativo, pois para capina isso gera danos por ser usado em grandes extensoes ate mesmo absorvendo pela terra e poluindo aguas e terra destruindo a biodinamica do planeta, em pequenas plantaçoes como vasos domesticos é melhor que usar algo quimico, na agricultura o uso esta crescente, diminui a fabricação de venenos quimicos. veja bem, se essa fumaça iria para o ar em poluição e ela esta concentrada sendo utilizada nao seria a mesma quantidade dela no ar espalhado?

  4. Carlos Alberto

    É sempre muito importante o estudo e a comprovação das teorias!!! Parabéns pelo trabalho e que não desista com opiniões diferentes da sua, só tome cuidado com os resultados para sejam benéficos!!

  5. Jorge

    Entao vi os comentarios achei interessante, porem quando se fala de liberaçao de nitrogenio, a capina quimica seria feita a cada 30 a 45 dias conforme as chuvas, que lembrando as chuvas tambem libera nitrogenio, tambem esse volume de calda quando se trata de dessecagem sao volumes pequenos para pegar atingir uma vegetaçao existente, assim sendo vai atingir o solo quantidades minimas, sei q temos que ter o maximo de cuidado pois se trata de produtos quimico, porem a capina mecanica c enxadas tambem degrada o solo com as frequentes raspagens…alem das capinas quimicas serem mais rapidas, mais baratas e praticas…

  6. Inácio Ferreira de Oliveira

    Olá boa tarde

    Sou químico e utilizo o Acido Pirolenhoso como aromatizante
    Se alguém tiver para vender tenho interesse
    Meu fone 19 999540173

  7. Antonio da Silva

    O extrato pirolenhoso é utilizado a seculos por chineses e Japoneses e tem sido utilizado com sucesso na agricultura organica e na dissecação é seguro sempre em dosagens corretas

  8. joao luiz veiga

    Parabéns pela publicação, concordo com vc. Tenho acido pirolenhoso de eucalipto e bambu para comercialização 43 998276672

  9. Caio

    Concordo com o texto sobre a sustentabilidade da capina mecânica fora do Brasil, porém nosso país ainda carece de máquinas de qualidade, com preço acessível, sem falar na mão de obra qualificada para operar e dar manutenção necessária, dessa forma acho que aqui no Brasil a capina mecânica também não é sustentável, pode ser boa para o meio ambiente e sociedade, mas ainda não é vantajosa economicamente.
    Quanto ao extrato pirolenhoso, os municípios geram uma grande quantidade de madeira e capina na roçagem da área municipal que atualmente não são utilizados em local nenhum e aí fica minha dúvida, qual a desvantagem em utilizar a própria geração de resíduos vegetais como produto para a produção de extrato pirolenhoso a ser utilizado na poda química na área municipal?

  10. Fernando Wons Post author

    Caio, quanto à questão econômica, é certo que só teremos preservação e conservação ambiental, de fato, quando isso gerar lucro. Enquanto isso não acontece, temos as exigências legais para barrar um pouco a destruição. Por isso a importância da legislação ambiental no cenário atual. Porém, a legislação ambiental em si não leva em conta questões econômicas, com a única exceção da subsistência. Assim, se alguém quer abrir uma indústria ou qualquer outra atividade potencialmente poluidora, não pode solicitar a não exigência das normas ambientais por falta de recursos econômicos… Então, mesmo que os equipamentos sejam mais caros do que nos países desenvolvidos, não podemos usar este argumento para liberar a capina química em aglomerações urbanas, arriscando causar danos à população e ao meio ambiente. Muitas prefeituras possuem sim condições de comprar capinadeiras mecânicas, sem contar que a maioria dos municípios já possuem conselho de meio ambiente e o respectivo Fundo do Meio Ambiente, dinheiro que pode, e deve, ser investido nesses equipamentos. E outra coisa, muitas empresas são autuadas e as penas podem ser revertidas em equipamentos para o órgão ambiental ou a prefeitura. O que falta é muito mais uma mudança na cabeça dos dirigentes do que falta de dinheiro…
    Quanto aos resíduos de poda, galhos e folhas, eles devem ser trituradas e compostados. O adubo resultante pode ser distribuído para os pequenos agricultores, gerando economia na produção, e muitas outras vantagens. Destino muito mais ecológico do que a queima para extração de extrato pirolenhoso. Trabalho em uma cidade pequena e temos todos esses equipamentos. Como eu disse, o mais difícil é mudar a cabeça das pessoas.

  11. Roberto Corrêa de Andrade

    O que acho estranho é a proibição de extrato pirolenhoso no campo e, em contrapartida, seu uso no meio culinário, a tal fumaça líquida, presente em farofas, toucinho defumado, linguiças etc.
    Acho que deve-se atentar para o uso correto e produto de boa qualidade, como os extratos destilados que são praticamente livres de alcatrão. Já vi “youtubers” de culinária mostrando essa fumaça líquida, totalmente escura, como o o extrato sem decantação, ao contrário do extrato destilado que é de cor caramelo e transparente.
    Nesse “link” da Embrapa, tem uma foto dos diversos tipos de extrato (decantado e filtrado, destilado uma vez, duas, e resíduos de processo) O que vi na mão do “chef” de cozinha, parecia com o dos resíduos.

  12. Fernando Wons Post author

    O extrato pirolenhoso não é proibido para uso no campo. É proibido seu uso no perímetro urbano; pois como escrevi nos textos, atualmente não existe NENHUM produto aprovado pela anvisa para ser utilizado como herbicida na área urbana. A crítica que fiz foi em relação ao marketing de “dessecante ecológico” que é feito ao redor do extrato. Como praticamente tudo, só é ecológico se usado corretamente.
    A produção do extrato deve ser incentivada, pois pode ser utilizado na culinária, na cosmética, junto com os agrotóxicos, diminuindo a quantidade a ser aplicada, etc. Agora a aplicação como herbicida é questionável! Inclusive nenhuma cartilha oficial ou propaganda do extrato fala em uso como herbicida.

  13. Pingback: Artigo científico comprova que capina química em Marau/RS contamina o rio que abastece a cidade |

  14. Haroldo Sampaio

    Gostei muito da dissertação sobre o assunto. Parabéns
    Só lembrando que capina é a retirada completa da planta e o que passou no vídeo é roçada (corte das folhas sem arranquio das plantas.

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